CPII 180 anos: trajetória que se confunde com a história do ensino no Brasil

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Até o dia 2 de dezembro, data em que o Colégio Pedro II completa 180 anos, será publicada no site da instituição uma série de matérias especiais que abordarão aspectos importantes da trajetória do colégio e que contribuem para tornar o CPII uma instituição pública de ensino de excelência.

Além das matérias especiais, os canais de comunicação também ganharão um novo visual para marcar a chegada desta data tão importante. O site institucional, por exemplo, já está com o selo comemorativo dos 180 anos e um contador fará a contagem regressiva para o aniversário do CPII, que será comemorado com uma programação muito especial.

Daremos início a essa série de reportagens com uma matéria sobre a história do colégio, destacando curiosidades e momentos marcantes dessa trajetória que se confunde com a história do ensino público no país e, ainda, destacando o papel de nossos alunos nesse percurso.

As professoras Beatriz Boclin, Vera Lucia Cabana, Vera Maria Rodrigues e o professor Paulo Sérgio Seabra, da Comissão de Memória Histórica, nos ajudaram a recontar parte da história do CPII.

O Colégio Padrão – Em um momento em que o foco do ensino em muitas escolas é conseguir melhores posições em rankings do Enem e aprovar seus alunos em universidades, o Colégio Pedro II vai muito além, formando cidadãos preparados para a vida. A preocupação com uma formação crítica e humanística é uma característica que acompanha o Colégio Pedro II desde sua criação.

Quando criado em 2 de dezembro de 1837, em homenagem ao imperador Dom Pedro II, então com 12 anos, o Colégio Pedro II tinha como principal meta servir de modelo para a instrução secundária no país. Seu corpo de professores - composto por renomados intelectuais-, seu programa de ensino e sua rígida disciplina deram ao colégio imperial função normativa de preparação dos alunos para os cursos superiores, objetivando a formação de uma elite cultural.

"O Colégio Pedro II foi o único estabelecimento oficial de ensino secundário a conferir o Grau de Bacharel em Letras a seus formandos. O Decreto de 30 de setembro de 1843 estabelece que os Bacharéis em Letras pelo Colégio de Pedro II serão isentos de fazer exames das matérias preparatórias para serem admitidos em qualquer das Academias/ Institutos Superiores do Império", comenta a professora Beatriz Boclin. Hoje, os estudantes que concluem o ensino médio no CPII ainda recebem este título, mas a não obrigatoriedade de os alunos prestarem exames para ingresso nos cursos superiores foi suspensa com a mudança para o regime republicano, no início do século XX.

Com o advento da República, o CPII passou por muitas mudanças. O ensino elitista deu lugar à liberdade de ensino que preconizava uma "escola para todos, livre e laica". A ruptura com a tradição imperial foi marcada também pelas mudanças de nomes, que objetivavam dar um caráter mais popular, voltado para a educação geral. Assim, o Colégio Pedro II chegou a se chamar Instituto Nacional de Instrução Secundário (1889), Ginásio Nacional (1890), Externato Nacional Pedro II e Internato Nacional Bernardo Pereira de Vasconcelos (1909), até voltar a ostentar seu nome original em 1911, dividido em Externato (Centro) e Internato (São Cristóvão).

"Ao longo dos diversos e sucessivos períodos republicanos, o Colégio Pedro II se adaptou, se reinventou, e evoluiu no campo das diferentes políticas educacionais, configurando-se como uma escola pública de qualidade, promotora do desenvolvimento integral do aluno através da formação da cultura geral de preparação para a vida", destaca a professora Vera Lucia Cabana.

Tanto no período imperial quanto no republicano, o CPII desenvolveu uma cultura escolar própria, de referência nacional, responsável pela formação de dirigentes do País (presidentes, ministros, senadores, deputados, magistrados e militares), além de atores sociais de destaque nos mais diversos campos profissionais.

Quase 180 anos após sua criação, o CPII permanece como uma instituição de referência no cenário educacional, contribuindo para a formação de mais de 12 mil estudantes, da educação infantil ao ensino superior.

Expansão – Ao longo de sua história, o CPII passou por três processos de expansão, iniciados na década de 1950. O primeiro deles, entre 1952 e 1957, marca a criação das Seções Norte, Sul e Tijuca. "Essa expansão se deu para atender à crescente demanda de vagas nas duas casas existentes desde o século XIX, o Externato e o Internato, com crescente procura da população pelo ensino de qualidade nelas oferecido, levando a que, a cada ano, grandes contingentes de jovens ficassem excedentes nos exames de admissão realizados pelo Colégio Pedro II", explica a professora Vera Maria Rodrigues, coordenadora do Centro de Documentação e Memória.

O segundo, entre 1984 e 1987, é caracterizado pela criação de quatro Unidades Escolares de Primeiro Segmento de 1º Grau, os "Pedrinhos". "A razão para criá-las remonta à Lei de Diretrizes e Bases nº 5692, de 11 de agosto de 1971, que estabeleceu as bases para o ensino de 1º e 2º graus, conforme a nova terminologia, para os antigos cursos primário, ginasial e colegial, implementando uma Reforma Educacional, que estabeleceu a junção dos cursos primário e ginasial no curso então denominado de 1º grau, com duração de oito anos", conta Vera Maria.

Ao longo de 1983 começou a ser elaborado o projeto para criação do Primeiro Segmento do 1º grau, culminando com a inauguração da Unidade Escolar São Cristóvão II, em 29 de março de 1984. "Sucederam-se, anualmente, as Unidades Escolares Humaitá II, Engenho Novo II e Tijuca II", relata Vera Maria. Na década seguinte, ocorreu uma inversão nas denominações, passando os Pedrinhos a serem denominados Unidades Escolares I e as Unidades de 2º Segmento de 1º grau e 2º grau, Unidades Escolares II. "O tempo provou ter sido essa uma das decisões mais acertadas da direção-geral daquela época, uma vez que os Pedrinhos, pelo excelente trabalho pedagógico realizado, constituem-se em referência nesse nível de ensino", destaca a professora.

O terceiro e mais recente processo de expansão aconteceu entre 2004 e 2012, com a criação, inicialmente, da Unidade Escolar Experimental de Realengo, em 2004, seguida das Unidades Escolares Descentralizadas (UNED) de Niterói, em 2006, e de Duque de Caxias, em setembro de 2007, todas destinadas ao Ensino Médio. "A abertura dessas novas Unidades teve por objetivo ampliar a atuação do Colégio Pedro II para outras regiões, ofertando Ensino Médio de qualidade a milhares de jovens que até então tinham que efetuar grandes deslocamentos para acessar uma das Unidades existentes", relembra Vera Maria.

Em 2010, com as obras de restauração dos pavilhões abandonados da antiga Fábrica de Cartuchos do Exército, foi possível inaugurar o quinto Pedrinho, a Unidade Escolar Realengo I, e implantar os Anos Finais do Ensino Fundamental na Unidade Escolar Realengo II.  Em 2012, no Complexo Escolar de Realengo, consolidou-se mais um momento inovador do CPII: a criação das primeiras turmas de Educação Infantil, destinadas a crianças de 4 e 5 anos - em 2014, passaram a ser admitidas crianças a partir de 3 anos.

Com a equiparação do Colégio Pedro II aos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, todas as 14 Unidades Escolares converteram-se em campus. "Decorridos dez anos de quando teve início o terceiro processo de expansão, o Colégio Pedro II, antecipando-se à legislação que prevê a oferta do ensino dos 4 aos 17 anos, ampliou consideravelmente sua área de atuação e o efetivo discente, sempre mantendo a qualidade que o faz admirado e respeitado pela sociedade e pelo governo", finaliza Vera Maria.

Estudantes engajados em questões sociais e políticas – Os estudantes do Colégio Pedro II sempre tiveram uma tradição de lutas e mobilizações educacionais, sociais, políticas e culturais ao longo de sua trajetória histórica. As causas das mobilizações são inúmeras, como questões internas do próprio colégio, da educação em geral, sociais, políticas e aquelas envolvendo a cidade do Rio de Janeiro e o País.

No campo do movimento estudantil, os estudantes do colégio sempre estiveram à frente. Participaram da criação da Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas (AMES), das mobilizações estudantis, em conjunto com os estudantes universitários, na luta contra o nazi-fascismo (década de 1940), na campanha do “Petróleo é Nosso” (década de 1950). "Na década de 1960, as mobilizações estudantis universitárias e secundaristas foram intensas antes e depois do 'Golpe Civil-Militar de 1964', sendo inclusive o nosso alunado protagonista numa série televisiva sobre este período: 'Anos Rebeldes', escrita pelo autor de telenovelas e Aluno Eminente, Gilberto Braga", exemplifica o professor Paulo Sérgio Seabra.

O professor relata que, no período da redemocratização, com o fim do regime militar, na década de 1980, a participação estudantil foi intensa com a volta da AMES. Os alunos do CPII foram bastante atuantes, pois eram dos poucos que já possuíam um grêmio estudantil livre. O mesmo se deu na campanha das “Diretas Já” (1984), pela volta da democracia plena, e também no movimento “Fora Collor”, conhecido como os “Caras Pintadas”, em 1992.

Nas causas sociais também o corpo discente do colégio tem papel importante, tendo voz nos debates sobre a questão de gênero, étnico-racial e de diversidade sexual, por exemplo. Atualmente, nos diversos campi do CPII, os estudantes se mobilizam em coletivos para debater esses temas e exigir melhorias tanto no ambiente escolar quanto na sociedade.

Um exemplo histórico ocorreu na década de 1920, quando com base no Decreto 16.782-A, do Departamento Nacional de Ensino, a estudante Yvonne Monteiro da Silva abriu a instituição à presença feminina. "Desde 1922, o movimento feminista, através da 'Primeira Conferência pelo Progresso Feminino', da Liga pelo Progresso da Mulher propunha a educação e instrução da mulher e maior participação social. A entrada da estudante no Colégio Pedro II repercutiu no movimento feminista brasileiro e foi vanguarda na ampliação dos direitos das mulheres. Em 1931, o Segundo Congresso Internacional Feminista, foi realizado no Salão Nobre do Externato e contou com presença da primeira aluna matriculada e a receber o grau de bacharel que discursou em sessão especial do evento", relata Paulo.

Uniforme escolar: mudanças que repercutem as transformações políticas e sociais – É impossível não reconhecer um estudante do Colégio Pedro II por seu uniforme. O modelo atual composto por calça ou saia azul marinho com camisa de botão branca (com ou sem viés azul) - que não faz diferenciação de gênero - passou por várias mudanças ao longo do tempo.

Quando o Seminário de São Joaquim foi transformado no Imperial Colégio de Pedro II, o traje monacal, próprio dos seminários católicos deu lugar a uma indumentária que se baseava nos liceus franceses da época napoleônica composta por jaqueta, calça e gravatas pretas, colete e sobrecasaca, inicialmente na cor verde e, posteriormente, azul.

Com a República, os novos uniformes acompanharam as transformações políticas. Nesse período, o uniforme sofreu influência militar e passou a ser composto por boné, tipo quepe, dólmã, calça, polainas de brim e botina de couro.

Na década de 1930, a presença feminina no corpo de alunos representou a renovação dos costumes da sociedade, levando à redefinição dos uniformes. "As meninas trajavam, no cotidiano, saia de machos e blusa de brim caqui, do mesmo tecido do uniforme dos meninos, dólmã e calça de brim caqui e sapatos pretos. O uniforme era complementado por cinto, meia calça transparente e sapatos pretos", conta Beatriz.

Na década de 1960, o uniforme passou por nova mudança assemelhando-se ao modelo atual. "O tradicional uniforme caqui cedeu lugar aos uniformes de calça e saia azul marinho e blusa branca, assemelhando-se aos das demais escolas de ensino público, espelhando o caráter de escola popular e de massa", explica Vera Lucia.

CPII: lugar de memória – "Uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II. Andei por colégios mais lúgubres do que a casa do Agra. Mas há, em mim, até hoje, a nostalgia de não ter estudado ou fingido que estudava lá. A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca. Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II." - Nelson Rodrigues

O Colégio Pedro II ocupa um lugar especial no imaginário daqueles que compõem ou compuseram (ou desejaram compor) sua comunidade escolar. Como afirmam as professoras Beatriz Boclin e Vera Lucia Cabana, este sentimento especial se fortalece no canto do Hino do CPII e no brado na Tabuada e nas cerimônias de formatura, com a outorga do Grau de Bacharel em Ciências e Letras (mesmo como título honorífico).

"Fazer parte da história do Colégio Pedro II é ostentar o título de ex-aluno, Aluno Eminente, Aluno Pena de Ouro, Professor Emérito, Professor Honorário e Bacharel Honoris Causa", destacam.

Fonte: Assessoria de Comunicação do Colégio Pedro II (CP II)

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