Luzia Mota, reitora do IFBA, aborda a importância do Dia da Consciência Negra para o combate ao racismo estrutural em entrevista ao Conif

edit 2A centenária Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica foi criada pelo primeiro presidente negro do Brasil, Nilo Peçanha, e nasceu como uma política de governo para dar assistência a jovens pretos da recente república brasileira. No decorrer de todos esses anos, não foram poucas as conquistas da população negra, e sabemos que ainda há muita coisa a ser feita para dar mais equidade e justiça social aos afro-brasileiros.

O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado hoje (20/11), nos chama a atenção para dialogar sobre a igualdade racial. Durante essa semana, diversas instituições da Rede Federal colocaram a temática em pauta e foram promovidos muitos eventos. De acordo com a Plataforma Nilo Peçanha, do Ministério da Educação (MEC), mais de 83% dos estudantes da Rede Federal se identificam como pardos ou pretos.

Em entrevista ao Portal do Conif, a reitora do Instituto Federal da Bahia (IFBA), Luzia Mota, aborda a importância da data e do combate ao racismo estrutural na sociedade brasileira. Luzia, que é Doutora em Difusão do Conhecimento pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é professora titular da instituição desde 1994 e estará à frente da gestão do IFBA até 2023. Acompanhe a entrevista que a reitora do IFBA concedeu ao portal do CONIF.

CONIF: Podemos considerar a Rede Federal inclusiva?

Luzia Mota: Nossa Rede é extremamente inclusiva. Eu diria que a Rede Federal é a experiência Educacional pública do Brasil mais relevante quando nós falamos do enfrentamento as desigualdades sociais, raciais, de gênero e todos as outras que enfrentamos cotidianamente no país. Aqui temos políticas focadas para pessoas negras, quilombolas, indígenas e pessoas com deficiência.

CONIF: Qual o papel da Assistência Estudantil nesse processo inclusivo?

Luzia Mota: A Assistência Estudantil foca em toda a população em vulnerabilidade social. Isso torna a rede uma experiência inclusiva, pois oferece uma educação integral e de excelência para a população mais vulnerável das instituições.

CONIF: Quais desafios são mais urgentes para ampliar a inclusão de jovens pretos à educação profissional, científica e tecnológica?

Luzia Mota: Para responder à questão, eu vou dividir os desafios em duas partes. O primeiro é a necessidade de ampliação do ingresso da juventude na Rede Federal. Para esse ingresso é necessário investimento público. Ainda temos campi que não funcionam com 100% da sua capacidade e temos que ampliar as vagas para dar mais oportunidades aos jovens pretos e pretas, para que consigam acessar essa Rede que é, de fato, inclusiva e oferta educação de qualidade. Essa é uma oportunidade de dar a esses meninos e meninas a oportunidade de ocupar lugares na sociedade e de produzir riquezas e bens públicos da sociedade.  

CONIF: Qual seria o segundo ponto?

Luzia Mota: O outro ponto, que também é muito importante, diz respeito à permanência deles nas instituições. Para que essa permanência seja efetiva, é preciso investir na questão da Assistência Estudantil. Hoje, estamos passando por um drama nesse ponto, pois não sabemos como será o investimento na Assistência Estudantil, por parte do governo, para os próximos anos.

CONIF: Apenas os programas de bolsas de estudo resolvem o problema?

Luzia Mota: O investimento tem que ser de qualidade e não pode ficar restrito às bolsas. Ela também tem a ver com todos os servidores, com o combate ao racismo estrutural que permeia nossas instituições. É preciso investimento em formação, para que haja um debate e uma reflexão sobre essa questão, além de não permitir que os estudantes sejam segregados.

CONIF: Que mecanismos podem ser usados para evitar essa segregação?

Luzia Mota: Temos que tirar dos estudantes o sentimento de que as instituições apenas os suportam. Eles não podem estar com esse sentimento. Para isso, devemos implementar de maneira efetiva as Leis nº 10.639 e nº 11.845, que colocam nos currículos escolares componentes relacionados a cultura africana. Esses meninos e meninas devem ser multiplicadores do combate ao racismo estrutural da sociedade. É fato que as cotas têm a finalidade de inclusão social da população negra no enfrentamento as desigualdades raciais, mas também é verdade que essa é a única forma que essa população ocupe os espaços de poder e façam as alterações necessárias.

CONIF: Como podemos ampliar e melhorar esse debate na Rede Federal?

Luzia Mota: É preciso investimentos que garantam a permanência e o êxito dos jovens pretos e pretas nas escolas. Os estudantes devem fazer parte das instituições e não sentirem que as instituições estão fazendo um favor ao aceitá-los lá. Todas as ações devem estar voltadas para esse mantra.

CONIF: Na sua opinião, que políticas públicas devem ser desenvolvidas a curto, médio e longo prazo para tornar essa inclusão palpável?

Luzia Mota: São muitos os desafios, mas eu destaco três que devem ser trabalhados na promoção por igualdades. São eles: os territórios, pois ainda há uma segregação no Brasil. Tem lugares que são para pretos, pobres periféricos, e os que eles não podem ocupar. O outro elemento é a violência. O genocídio da população negra precisa ter a mão do Estado para que esse crime contra a sociedade brasileira acabe. Por fim a escola. A educação é um bem público que é negado historicamente à população negra. Então, a ausência da educação e a negação foi e continua sendo um obstáculo para que pretos e pretas possam ocupar os postos de poder onde se constituem a produção das políticas públicas no Brasil. Somos segregados desses cargos e vivemos submetidos à lógica da “branquitude”. Esses três pontos são convergentes e fazem com que o racismo estrutural se mantenha na sociedade.

CONIF: Qual a importância do Dia da Consciência Negra para o Brasil do século 21?

Luzia Mota: O dia 20 de novembro é simbólico. Esses meninos e meninas tem a possibilidade de celebrar a vida de Zumbi como herói da pátria. É muita representatividade.

CONIF: Qual o simbolismo de Palmares?

Luzia Mota: É justamente nos quilombos que a cultura negra, a ancestralidade e a cosmovisão africana foram preservadas no Brasil.

CONIF: Qual a importância, na sua visão, das atividades que a Rede tem preparado para celebrar o Dia da Consciência Negra?

Quando estudei, em Salvador, não havia uma estética negra na escola. Éramos todos embranquecidos. Hoje, olhando para dentro das nossas instituições podemos observar meninos e meninas com orgulho de usar um blackpower, por exemplo. Nós podemos ver a estética preta nos corredores. É muita beleza, e bem ao alcance dos nossos olhos. Apesar de inclusiva, a Rede ainda tem seus momentos de perversidade estrutural e ver esses debates acontecendo é muito bom. O debate nos ajuda a avançar. 

Assessoria de Comunicação do Conif
Texto: Marcus Fogaça
Foto: Arquivo/IFBA
Revisão: Fernanda Torres

SCS, quadra 2, bloco D, Edifício Oscar Niemeyer, térreo, lojas 2 e 3. CEP: 70316-900. Brasília – DF

       ​Secretaria Executiva
    (61) 3966-7220
   conif@conif.org.br

       ​​Assessoria de Comunicação Social e Eventos
    (61) 3966-7230
   ​comunicacao@conif.org.br

       ​​​Assessoria de Relações Internacionais
    (61) 3966-7240
   ​internacional@conif.org.br