Sofala, Maputo, Joanesburgo, São Paulo, Belém e, finalmente, Macapá. O professor Alberto Carlos Vereda, de 37 anos, percorreu um longo caminho desde sua província, na região central de Moçambique, até a Amazônia brasileira. Só o trajeto entre Maputo e Macapá superou 35 horas de viagem. O destino da formação é o Campus Porto Grande do Instituto Federal do Amapá (Ifap), uma das unidades que recebem participantes do Programa de Fortalecimento da Educação Profissional e Tecnológica de Moçambique (Bramotec).
Com formação em Engenharia Agronômica, Alberto atua no Instituto Médio Agrário de Caia e integra a quarta edição do programa voltada à área agrícola. Já nas primeiras horas em solo brasileiro, conseguiu ter um gostinho da cultura amazônica. “No aeroporto de Macapá, fomos recebidos pela professora Iara Viero e pelo Fábio Malcher. Fizemos uma foto e, depois, percorremos alguns pontos da cidade, como a orla do rio Amazonas. Durante o passeio, conhecemos um pouco dos hábitos, da alimentação e da cultura local, que apresenta semelhanças com a de Moçambique”, afirma.
Chegada da delegação moçambicana ao Aeroporto Internacional de Macapá. Foto: Arquivo pessoal
Sua província de origem, Sofala, é banhada pelo oceano Índico e tem os rios Zambeze e Save entre seus limites naturais. Agora, às margens do Amazonas, Alberto começa a conhecer outra paisagem e a encontrar afinidades com seu país.
O professor não está sozinho. Ele integra o grupo que será recebido no Ifap, ao lado de Carolina Alfabeto Jamisse, José Júnior Mbanze, Euclides Barros e Graça David Monteiro. Os participantes permanecerão no Brasil até 29 de outubro, período em que realizarão atividades de formação na área agrícola e compartilharão experiências com profissionais brasileiros.
“Provamos açaí, farofa, farinha branca, pescados, frango, bife e outros alimentos. Achamos a comida muito saborosa e sentimo-nos em casa”, conta Alberto. Além das descobertas culturais, o docente destaca a possibilidade de aprender e compartilhar sua experiência profissional. Ao falar sobre o que espera do intercâmbio, lembra também dos estudantes que ficaram em Moçambique.
Professor Alberto Carlos Vereda em encontro com o reitor do Ifap, Romaro Silva. Foto: Ascom/Ifap
“Temos grandes expectativas em relação ao intercâmbio, especialmente pela oportunidade de fortalecer e aprimorar os nossos conhecimentos. Queremos também compartilhar as nossas experiências, mostrar como trabalhamos em Moçambique e como desenvolvemos as nossas atividades. Uma das nossas principais expectativas é adquirir conhecimentos para transmiti-los aos nossos formandos”, afirma.
Delegação
Nesta edição, o Bramotec reúne 78 profissionais moçambicanos, entre docentes e gestores. A chegada ao Brasil nesta semana marca o início da etapa presencial da formação. O grupo reúne representantes de dez províncias, com formação em áreas como Agronomia, Agropecuária, Engenharia Florestal, entre outras.
A formação começou com a etapa virtual, realizada de 14 a 18 de setembro, e abrange temas como fertilidade do solo, controle de pragas e doenças, mecanização agrícola e extensão rural. A proposta é fortalecer a atuação de profissionais que poderão multiplicar os aprendizados em suas instituições de origem.
Recepção das professoras Rosita, Adriana e Argentina no IFMS Campus Nova Andradina. Foto: Arquivo Pessoal
Para Felizarda Viana Bebé, professora do IF Baiano Campus Guanambi e ponto focal do projeto na instituição, as trocas começaram ainda na elaboração do Projeto Pedagógico do Curso e se intensificaram com a chegada dos participantes.
“O programa Bramotec é extremamente valioso. Desde a construção do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) até a chegada dos moçambicanos, houve uma enorme troca de conhecimentos e experiências entre os professores do Brasil, nos diversos campi, e, principalmente, com os formadores de Moçambique”, destaca.
A iniciativa mobiliza 14 campi de nove Institutos Federais. Além do Ifap e do IF Baiano, participam o IFPA Campus Marabá Rural; o IFSertãoPB Campus Sousa; o IF Goiano Campus Morrinhos; os campi Nova Andradina e Ponta Porã, do IFMS; os campi Bom Jesus do Itabapoana e Cambuci, do IFF; os campi Rio Pomba e Barbacena, do IF Sudeste MG; e os campi Inconfidentes, Machado e Muzambinho, do IFSULDEMINAS.
O Bramotec integra a cooperação Sul-Sul entre Brasil e Moçambique. O Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) participa do comitê binacional responsável pelo programa. Também compõem o comitê o Ministério da Educação do Brasil, por meio da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica e da Assessoria Internacional, e o Ministério da Educação e Cultura de Moçambique, por meio da Direção Nacional de Educação Profissional.
“O Conif assumiu a cooperação Sul-Sul como um compromisso institucional, expresso na continuidade e na expansão das parcerias com países africanos, como Moçambique. Nosso objetivo é ampliar o diálogo sobre práticas de educação profissional que promovam uma formação crítica e contribuam para a transformação das realidades sociais”, explica a diretora de Relações Internacionais do Conif, Ana Carolina Oliveira.
Nesse contexto, a diretora explica que o Bramotec tem caráter formativo e solidário, baseado na construção conjunta de conhecimentos. “O programa valoriza a troca de saberes, fortalece a interculturalidade nos campi da Rede Federal e amplia o envolvimento de servidores, gestores e estudantes em experiências de internacionalização. Também abre caminhos para novos projetos de ensino, pesquisa e extensão, orientados por desafios e interesses compartilhados”, completa.
Histórico
A parceria do Conif com Moçambique começou em 2017, quando o Conselho realizou uma missão de prospecção ao país. Desde então, a cooperação tem promovido a formação de formadores em áreas como agricultura, mecanização agrícola, design de interiores e construção civil. Em 2024, foi realizada a terceira edição da formação no eixo agrícola.
Participantes da edição de 2024 do Bramotec no IFSULDEMINAS Campus Machado. Foto: Arquivo/Conif
Resultado de parceria com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e coordenadas pela Diretoria de Relações Internacionais do Conif, essas iniciativas mobilizaram mais de 20 instituições da Rede Federal. A parceria também se ampliou para projetos nas áreas de segurança alimentar, pesca e aquicultura, além do Caminhos do Algodão, voltado à implantação de um centro de pesquisa, inovação e formação para o setor algodoeiro em Moçambique.
Em 2023, o Conif e a Direção Nacional de Educação Profissional (DNEP) renovaram o Protocolo de Intenções, reafirmando o compromisso com a cooperação Sul-Sul e com a integração entre os dois países.
Diretoria de Comunicação do Conif
Texto: Marcus Fogaça
Foto: Arquivo pessoal
