Há lugares que, por si só, comunicam uma mensagem. Foz do Iguaçu é um deles. Conhecida mundialmente pela exuberância de suas cataratas, ela simboliza também algo profundamente significativo para este Fórum: aqui, as fronteiras deixam de representar separação ou divisão para se transformarem em espaço de encontro, diálogo e cooperação entre povos e nações.
Creio que não poderia haver cenário mais apropriado para refletirmos sobre o futuro da educação superior em nossa região. Recebam, portanto, a saudação do Conselho Nacional dos Reitores e Reitoras das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica do Brasil (Conif), composto pelos 39 Institutos Federais, pelos 2 CEFETs e pelo Colégio Pedro II.
É uma honra compartilhar este painel com colegas que, em seus respectivos países, dedicam suas trajetórias à construção de uma educação superior comprometida com o desenvolvimento de nossos povos.
Vivemos um momento histórico em que os desafios ultrapassam as fronteiras nacionais.
As mudanças climáticas, a transformação digital, a insegurança alimentar, as desigualdades sociais, as novas configurações do mundo do trabalho e a necessidade permanente de fortalecer a democracia, reafirmar a soberania de nossas nações e promover um desenvolvimento sustentável exigem respostas coletivas. Se nossos desafios são comuns, também precisamos compartilhar as nossas soluções.
É justamente nesse contexto que ganha sentido a construção de um Sistema Regional de Educação Superior. Um sistema que vá além da mobilidade acadêmica, dos acordos institucionais ou das redes de pesquisa — todos eles absolutamente indispensáveis. Precisamos construir uma comunidade acadêmica latino-americana comprometida com o desenvolvimento humano, a redução das desigualdades e a produção de conhecimento capaz de transformar a realidade de nossos territórios.
Para isso, é fundamental fortalecer uma governança regional baseada na cooperação, na confiança e na solidariedade entre nossas instituições. Acreditamos em uma governança horizontal, na qual o intercâmbio de experiências e de boas práticas de gestão acadêmica e administrativa fortaleça todas as instituições e amplie nossa capacidade coletiva de responder aos desafios da região.
É nessa perspectiva que o Conif compreende a cooperação internacional: como uma estratégia permanente de fortalecimento mútuo. Essa visão orienta a atuação internacional da Rede Federal.
Por acreditarmos na força do trabalho em rede, temos consolidado parcerias estratégicas com importantes organizações da região, como a ACIET, da Colômbia; a ANUIES, do México; o DUOC, do Chile; e o Cluster América Latina da UNESCO-UNEVOC.
Essas parcerias se traduzem em ações concretas: intercâmbio de boas práticas de gestão, mobilidade acadêmica, formação de servidores, pesquisa colaborativa, capacitação internacional e realização de eventos científicos. Nossas instituições mantêm relações permanentes de cooperação com parceiros da Argentina, Guatemala, Peru, Colômbia, Chile, Uruguai e diversos outros países latino-americanos.
A integração regional, portanto, não é apenas um projeto para o futuro. Ela já está sendo construída diariamente por nossas instituições. É a partir dessa experiência que gostaria de compartilhar a contribuição da Rede Federal brasileira para este debate. Os Institutos Federais nasceram de uma decisão estratégica do Estado brasileiro: levar educação pública, gratuita e de qualidade justamente aos territórios onde ela historicamente era escassa. Nossa presença alcança todo o território nacional.
Estamos nos grandes centros urbanos, mas também em pequenas e médias cidades: na Amazônia, no Semiárido, nas regiões de fronteira, em comunidades rurais, junto a povos tradicionais e em inúmeros municípios do interior do Brasil. Essa presença territorial não representa apenas descentralização administrativa. Ela expressa uma concepção de desenvolvimento. Porque levar educação técnica integrada ao ensino médio, educação superior, ciência e tecnologia para o interior significa levar oportunidades, inovação, esperança e desenvolvimento regional.
Significa reconhecer que o talento humano está distribuído por todos os territórios, mas que as oportunidades, infelizmente, ainda não. Talvez a maior singularidade da Rede Federal esteja justamente na forma como compreendemos a educação. Nossos Institutos integram educação básica, educação de jovens e adultos, educação profissional, graduação, pós-graduação, pesquisa aplicada, inovação e extensão.
Essa verticalização aproxima diferentes níveis de ensino, fortalece trajetórias formativas completas e conecta o conhecimento às necessidades concretas da sociedade. Grande parte da pesquisa desenvolvida em nossos Institutos nasce dos desafios vividos pelos próprios territórios.
São pesquisas voltadas para fortalecer a agricultura familiar, desenvolver tecnologias sociais, ampliar o uso de energias renováveis, apoiar pequenas empresas, promover inclusão digital, desenvolver soluções para a indústria, preservar recursos naturais e melhorar a qualidade de vida das comunidades. Isso faz com que a inovação deixe de ser um fim em si mesma para se tornar um instrumento de transformação social.
Da mesma forma, compreendemos a extensão como um processo de construção coletiva do conhecimento. Aprendemos com agricultores, pescadores, povos indígenas, comunidades tradicionais, cooperativas, empresas, escolas e governos locais. Quando ciência e sociedade dialogam em pé de igualdade, todos aprendem e todos inovam.
Outro compromisso estratégico da Rede Federal é a formação de professores.
Nossos Institutos desempenham papel fundamental na oferta de licenciaturas e na formação continuada de docentes, especialmente nas áreas das Ciências da Natureza, Matemática, Computação, Educação Profissional e Educação do Campo. Investir na formação de professores significa investir na qualidade de toda a educação básica e, consequentemente, no futuro do desenvolvimento de nossos países.
A experiência da Rede Federal nos levou a ampliar a própria compreensão sobre o papel da educação superior. Mais do que formar profissionais e produzir conhecimento — funções absolutamente essenciais —, nossas instituições foram concebidas e estão sendo utilizadas também como infraestruturas públicas de desenvolvimento territorial.
Cada campus é muito mais do que um espaço de ensino. É um polo de formação de pessoas, produção de conhecimento, inovação, empreendedorismo, produção artístico-cultural e articulação com governos locais, setor produtivo e sociedade civil.
É uma instituição que ajuda a construir capacidades permanentes para que cada território possa definir e construir o seu próprio futuro. Essa é uma contribuição que a experiência brasileira oferece ao diálogo latino-americano. Ela demonstra que a excelência acadêmica não precisa estar concentrada nas grandes metrópoles. Que a inovação não precisa permanecer restrita aos grandes centros econômicos. E que a ciência pode florescer em todos os territórios quando existem instituições públicas comprometidas com as pessoas e com as vocações locais.
Esse compromisso também se expressa na participação ativa da Rede Federal nas Conferências Regionais de Educação Superior. Nossos reitores e reitoras participaram ativamente das últimas edições da CRES, reafirmando princípios que consideramos fundamentais: a educação como direito humano, como bem público e como dever do Estado. Ao projetarmos a CRES 2028, entendemos que esses consensos precisam ser preservados e fortalecidos.
Em um mundo marcado por crescentes tendências de mercantilização da educação superior, reafirmamos nossa convicção de que o conhecimento não pode ser tratado como mercadoria, mas como patrimônio coletivo capaz de promover desenvolvimento, reduzir desigualdades e fortalecer nossas democracias. A integração latino-americana não será construída apenas por tratados, acordos ou declarações.
Ela será construída, sobretudo, pelo conhecimento que produzimos juntos, pela confiança que estabelecemos entre nossas instituições e pelas oportunidades que oferecemos às novas gerações. Que possamos construir uma educação superior que una nossos países porque transforma nossos territórios.
Essa é a proposta e o compromisso que o Conif traz a este Fórum.
Foz do Iguaçu (PR), 30 de junho de 2026
José Carlos de Sá, vice-presidente de Administração do Conif
